Domingo, 20 de Abril de 2008

A outra Angola...

Quatro da manhã, acabei de chegar a casa, o sono não é muito, apetece-me mais escrever, apesar de daqui a pouco ter de me levantar, amanhã (domingo) é dia de trabalho e é também dia de derby Porto-Benfica e caso o Benfica não ganhe por menos de três é uma chatice porque depois amarro o burro e não há blogue para ninguém… eh eh eh, grande moral. Vim directamente do D. Quixote que estava muito bem frequentado com a festa branca da Smirnoff. Enquanto os amigos na Tuga se vão divertindo pelo Túnel, aqui o menino tem de se contentar com o D. Quixote. Em tempos ainda me dei ao luxo de relatar estas festas, desisti, não há palavras, nem mesmo de Conde que retratem de forma leal o nível duma festa destas. Antes do D. Quixote um belo jantarinho em boa companhia no Chillout. Foi sem dúvida uma forma bem agradável de terminar a semana. Esta sim uma semana diferente.
Finalmente conheci uma outra Angola. Mais organizada, mais calma, mais civilizada, mais limpa, mas não menos impressionante no que diz respeito à pobreza. É avassalador ver o rasto da guerra pelos sítios onde passou. Tanto para dizer, mas uma só palavra me ocorre: Impressionante!
 
Na quarta-feira acordei cedo, levava como destino o Huambo. Desta vez a entrada no aeroporto 4 de Fevereiro fez-se pela parte dos voos domésticos e para desilusão minha não existia entrada para o protocolo (já não há respeito pelos Condes… tá mal). Contudo as condições eram razoáveis até tinha sala de espera com bar e TV. Uma hora depois estávamos a aterrar no Huambo e visto do ar deu logo para perceber que se tratava de uma outra Angola. A curiosidade invadia-me, por diversas vezes ouvi falar sobre as províncias e o que ouvia agradava-me. Agora pude verificar com os meus próprios olhos e compreendo mais facilmente o entusiasmo com que algumas pessoas falam da antiga Angola e da paixão que transmitem. Agora sim, entendo que Angola não é só Luanda, aliás Luanda nem parece fazer parte desta Angola.
 
Huambo, antigamente conhecida por Nova Lisboa, chegou em tempos a disputar a capital de Angola, perdendo para Luanda devido à melhor localização desta última por via marítima. É a cidade que dá nome à província, da qual fazem parte onze municípios. Em tempos já foi considerada uma das mais belas cidades de Angola. Neste momento pode até não ser, a guerra também passou por aqui e as marcas são bastante evidentes, mas as estradas são largas, as pessoas afáveis, podemos andar nas ruas confortavelmente, sem sentir aquela sensação de perseguição ou desconfiança que sentimos em Luanda, não precisamos sair de casa sem relógio e podemos andar com os telemóveis e as crianças, ai as crianças…
 
Tive pena de não ter tempo para fazer turismo, vi aquilo que foi possível ver, o suficiente para perceber que aqui sim valia a pena. Depois de um dia no Huambo rumámos durante cerca de três horas em direcção ao Kuito. Durante a viagem de carro por estradas de terra vermelha, o cenário oscila entre o fascinante e a penúria. Os alguns mercados que se encontram à beira da estrada são assustadoramente belos. As condições de sobrevivências daquelas pessoas faz-nos sentir uns privilegiados.  
 
Ao entrar no Kuito, antiga Silva Porto e apesar da calmaria, olhar para a destruição que ainda está bem patente na cidade deixa-nos boquiabertos. Os edifícios parecem crianças com sarampo, cravejados de balas por todo o lado. O Kuito faz parte da província do Bié que está localizada no centro do país e da qual fazem parte nove municípios. À semelhança do Huambo, também aqui não se passa nada, aliás aqui já cheira a civilização. Podemos andar tranquilamente e conviver com as pessoas. As crianças brincando nas ruas adoram ser fotografadas, vão à escola e levam os bancos para se sentarem e parecem ser sempre felizes independentemente das condições em que vivem. Fantástico como nos cinco meses que estou em Angola e com a brutal taxa de natalidade que existe, nunca tenha ouvido uma única criança chorar. Não sei se isso é bom se é mau! Sei sim, que nunca ninguém me disse que o sorriso nos pertence, nunca me foi prometido, simplesmente podemos tentar arrancar um sorriso, mesmo nas situações mais adversas. Basta querer! Eu quero ficar perto de tudo que acho certo, mesmo estando longe e até ao dia em que mudar a minha convicção.
 
Beijos e abraços,
 
Conde de Angola

publicado por Conde de Angola às 23:13
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3 comentários:
De Nuno das Neves a 21 de Abril de 2008 às 09:37
Boas Conde,

Já não era sem tempo fazeres uma viagem pelo interior e nos dares a conhecer a verdadeira Angola, espero que tenhas feito um bom percurso por essas bandas e que continues a manter-te fiel às tuas convicções pois parece-me importante que mantenhas íntegro, continua a reportar o dia a dia (semanal ) especialmente com muitas fotos ;) ,

Abraço do gaijo das Neves


De Marco a 21 de Abril de 2008 às 09:45
Master, mais uma excelente viagem que nos proporcionas a todos nós que somos teus amigos de verdade e que, à distância, vivemos de perto, mesmo ao teu lado, cada dia dessa tua aventura.
Força contigo!
Abraço!


De Nuno Feliciano a 21 de Abril de 2008 às 23:10
Um excelente registo fotográfico do interior de Angola. Eurico vive o dia a dia de acordo com as tuas convicções e vais ver que não te arrependes. Um forte abraço do mano Nuno Feliciano.


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