Quarta-feira, 9 de Julho de 2008

Alambamento

Para alguns o Alambamento não é novidade. Aquando da minha primeira vinda a Angola, tive a oportunidade de escrever sobre o tema, não em formato “post de blog” mas em mail enviado aos meus amigos. Já na altura o tema interessou pela sua originalidade, pela tradição e essencialmente pelos rituais que envolve. Nos últimos sete meses tive oportunidade de o aprofundar e chegou agora o momento de o partilhar, não vá algum de vocês querer casar com alguma angolana e convém não fazer má figura perante a família da noiva. Depois digam que o Conde não avisou.
 
Para melhor retratar a cerimónia do Alambamento, contei com a preciosa colaboração do Octávio Paulo José, que me facultou as fotos que ilustram este post, e também com a ajuda do Pedro Mbala, um dos nossos motoristas, que me conseguiu arranjar todos os impressos que envolvem a cerimónia. O Octávio (à esquerda na foto), pertence à Blue Team, é um dos nossos operativos, tem 31 anos, está noivo da Josefa Chaula Saldanha de 25 anos e ambos vivem neste momento o ritual que envolve toda a cerimónia do Alambamento. Bom é melhor começar a explicar o que é isto do Alambamento.
 
A grande maioria das sociedades tradicionais angolanas, tem como figura principal a mulher. É ela que trabalha a terra para sustento da família e gera os filhos que dão continuidade e poder ao clã. Por este motivo a saída da mulher da casa dos pais para a casa do marido, constitui para aqueles a perda de um precioso elemento de trabalho e, como tal eles merecem ser compensados por tal perda.
 
Na altura em que o noivo pretende pedir a mão na noiva em casamento, a família da noiva, geralmente os tios e tias, juntam-se e elaboram a carta do pedido. O que é então a “Carta do Pedido”? Também conhecida por “Relação do Pedido”: trata-se de uma lista elaborada pelos tios, onde consta uma relação de coisas que o noivo tem de “comprar” para oferecer à família da noiva, como indemnização pelos gastos feitos com ela desde o seu nascimento até ao dia do casamento. O dote representa um bem valioso porque quanto maior o pagamento, maior prestigio terá a noiva. Nesta lista constam coisas tão originais como, o fato para o pai da noiva, panos para as tias, cerveja, gasosa e ainda dinheiro que pode variar entre os 300 e os 500 dólares. Entretanto, este valor pode ser superior, caso o noivo tenha saltado a janela (acho esta expressão o máximo) sabe-se lá se o rapaz não partiu os vidros da mesma... Nada disso, saltar a janela significa que a noiva engravidou antes do casamento e é justo que o pedido seja reforçado.
 
Na altura da entrega da carta do pedido, é marcada uma data para que o noivo possa voltar com o pedido feito, ou seja, com tudo o que consta na carta. De realçar que na altura da entrega do pedido, nem a noiva, nem o noivo assistem à entrega do mesmo, deixando esse trabalho para a família (pais e tios dos noivos). Cabe aos tios da noiva, conferir a entrega com o pedido que foi feito. Só depois de verificarem que está tudo em conformidade, é que o noivo é chamado à cerimónia, para que se inicie a marcação da data do casamento. Nesta altura o noivo é trazido às cavalitas por uma das tias da noiva, e à medida que vai passando pelos panos das tias, que estão estendidos no chão tem de ir deixando dinheiro em cada um deles.
 
Agora já só falta a noiva. Onde estará? As tias geralmente dizem que está longe e que precisam de dinheiro para o táxi (candongueiro) para que a possam ir buscar. Tretas. Está mesmo no quarto ao lado. Esta é mais uma artimanha para explorar o coitado do rapaz. Por isso vos digo meus amigos, pensem bem antes de se meterem com uma angolana…
Depois do noivo largar mais umas kuanzas para o táxi, lá chega a noiva à sala, dando-se então lugar à marcação da data do casamento. Escusado será dizer que esta cerimónia acaba com grande festa no quintal, regada com o vinho e as cervejas que o noivo acabou de oferecer.
 
Mas o ritual, não fica por aqui. Já depois do casamento, e em caso de divórcio forçado e com as culpas para a noiva, ela terá de devolver as ofertas constantes na carta, completas ou parciais caso existam filhos. Se as culpas pertencerem integralmente ao rapaz ou à sua família, a exigência da restituição do dote torna-se impossível.
 
Só para perceberem a importância que este ritual tem na sociedade angolana, uma das marcas mais famosas de vinho em Angola está a usar o ritual do Alambamento num filme publicitário. Vai ser um sucesso de vendas, só pode.
 
 
Beijos e abraços,
 
Conde de Angola

 

P.S. Octávio e Josefa, aqui ficam os meus votos de felicidades para vocês.


publicado por Conde de Angola às 00:36
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1 comentário:
De lou a 31 de Março de 2009 às 20:04
Eu acho que temos é que ter cuidado antes de metermos-nos com homens que não sabem dar valor a mulher. Não fazem nenhum esforço pela mulher que amam, e nem respeitam as suas tradicões. Isso sim!


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