Segunda-feira, 10 de Março de 2008

Angola é nossa!

Olá amigos, sabem onde há praia boa em Março, sabem, sabem?… não, não é Ermesinde, é mesmo em Angola. Hoje vim sozinho, trouxe comigo um caderno, uma caneta que teima em falhar, enquanto tento escrever este texto e um livro que serve de carteira, onde guardo algumas notas para pagar o almoço. Vou escrevendo, debaixo de um calor abrasador. Volta e meia caem uns pingos no caderno, não, não é da chuva, é mesmo da água que escorre do meu cabelo sempre que venho do banho. Trouxe também o meu inseparável mp3 onde tenho gravado a música do Ronan Keating – “When you say nothing at all” que faz parte da banda sonora do filme Notting Hill, filme que vi umas 10 vezes, tal como todos os outros da Júlia Roberts. A Júlia é o meu amor impossível, lembro-me de ter amigos a dizerem: “Não sei o que vês nela” e lembro-me de responder com um simples: “Eu sei.”. Nem tudo na vida tem de ter uma explicação, ou tem?
 
 
De certeza que se recordam do primeiro dia em pegaram num carro e começaram a conduzir, o nervoso miudinho que se sente é algo que nos incomoda de forma incomparável. Já conduzo desde os 18 anos e 17 anos volvidos, (praticamente metade da minha vida) voltei a sentir essa estranha sensação. Foi na passada sexta feira, dia em que comecei a conduzir em Luanda. A sensação foi como se tivesse pegado num carro pela primeira vez. Tudo é novo, os sinais de trânsito, quais sinais? Isso interessa? Nahhh, é normal andarmos por estradas que têm placas de sentido proibido, é frequente encontrarmos buracos nas estradas tapados por lençóis de água, é normal querermos andar e ficarmos parados, é difícil atravessar cruzamentos, com o tráfego permitido em todos os sentidos e, na maioria dos casos, sem qualquer sinalização onde ganha prioridade quem mete o focinho primeiro… como diz o Miguel: Angola é Nossa! Luanda é sem dúvida a melhor terapia para os adeptos fanáticos da IC19 e da 2ª Circular… quem por aqui passa fica curado desses males. Ai fica, fica, garanto-vos! Mas nem tudo é mau, vejam só: pode-se conduzir e falar ao telemóvel, pode-se andar sem cinto de segurança, pode-se beber à vontade, não admira que ao domingo de manhã seja frequente ver carros estampados no acesso à ilha, sinal da ressaca da noite anterior, só não se pode mesmo é estacionar os carros com as rodas em cima dos passeios, são 12.000 kwanzas de multa (120 euros)… Angola é Nossa!
 
Este foi um fim-de-semana prolongado IUPIIIIIIIIIIIII, finalmente dois dias seguidos de descanso para a Blue Team. No sábado foi feriado (acabei por passar o dia no escritório) e aproveitei para folgar a equipa no domingo. Gostava que tivessem visto a cara dos rapazes quando lhes disse que no domingo podiam ficar a descansar. Há já uns meses que não acontecia… eles merecem, têm sido incansáveis. Os que não são genuínos não têm lugar nesta equipa e esta semana infelizmente houve um que perdeu o meu voto de confiança e saiu. Roubos não e, mentiras menos ainda.
 
A meio da semana fui surpreendido com a chegada de ex-colegas meus da GCT. Durante anos vivemos porta com porta, entrávamos nos gabinetes uns dos outros, bebíamos café juntos, íamos às mesmas reuniões, discutíamos futebol à segunda-feira de manhã… eram tipo segunda família. Por vezes passava mais tempo que com eles do que com a minha própria família. Tem piada as voltas que a vida dá, quem diria que os voltaria a encontrar em Luanda, ainda por cima em empresas diferentes e com locais de trabalho na mesma rua, a Rainha Ginga, eu no número 212 e eles meia dúzia de números mais acima. Quando os vi só lhes disse: “Eh pá tenham lá calma que isto não é assim tão mau quanto parece”. Tinham acabado de aterrar e reconheço que para quem vem a primeira vez o choque é grande. Ao sair da porta do aeroporto e ao ver a luz da rua a vontade é de voltar para trás e ficar mais algum tempo à espera que as malas saiam… enfim não é fácil, mas também não é difícil é simplesmente diferente. Carregado de emoções fortes é de certeza.
 
Aproveitei o facto de eles cá estarem para matar saudades dos tempos que passámos juntos, no sábado à noite fui buscá-los à guest house deles e levei-os a jantar ao restaurante Tia Maria nos Coqueiros. Preferi este ambiente mais angolano aos restaurantes da ilha, frequentados por pseudo-novos-ricos. Aconselho a quem não conhece, fica mesmo encostado ao estádio dos Coqueiros, onde joga o 1º de Agosto, equipa orientada pelo conhecido Vítor Manuel. Não é propriamente barato, mas em Luanda, nada é barato, só mesmo o tabaco. Uma espetada mista de peixe duas Super Bock e um café ficou por 3300 Kwanzas, o mesmo que 33 Euros. Um estudo recente coloca mesmo Luanda como a cidade mais cara do mundo, à frente de Oslo, Moscovo, Stavanger (Noruega), Copenhaga, Kinshasa, Seul, Libreville (Gabão), Genebra e o centro de Londres, no 10º lugar. É por estas e por outras que dou comigo a pensar como é possível o Augusto, um dos meus rapazes, com 23 anos e com 4 filhos conseguir sobreviver com um ordenado de trezentos e poucos dólares.  Enfim… Angola é Nossa!
 
 
Beijos e abraços,
 
Conde de Angola
 
P.S. Sábado foi dia internacional da mulher. Elas merecem este dia, são um ser fantástico, capaz de nos surpreender todos os dias… Feliz do homem que por um dia souber entender a alma da mulher!

publicado por Conde de Angola às 07:40
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Segunda-feira, 3 de Março de 2008

Mulheres de Angola

O miúdo nas costas, faminto
O sol queimando
O sol assando
O miúdo nas costas, faminto de alimento
As moscas acariciando-o
E o lixo distraindo-o!
 
A zungueira zunga, cansada
Na cabeça, o negócio e o sustento
E nos pés empoeirados
O cansaço dos quilómetros galgados
O cansaço da distância percorrida
A zungueira zunga, o miúdo nas costas faminto!
 
Décio Bettencourt Mateus
in "Os Meus Pés Descalços"
 
Este pequeno excerto do poema de Décio Mateus retrata o “espírito guerreiro” das mulheres angolanas, também conhecidas por Zungueiras. Começo assim o texto desta semana, dedicado a todas as mulheres de Angola, que no passado dia 2 de Março receberam homenagem com a comemoração do Dia da Mulher Angolana… e bem que elas o merecem, são umas autênticas leoas, especialmente as mulheres do pré-guerra. Gordas, magras, altas, baixas, convencem pela conversa transformando um perfume da Avon num perfume Channel. Elas são o embrião do comércio de Angola.
 
Em média têm sete filhos cada uma, há quem diga que este fenómeno se deva ao facto de só cerca de 6% usarem métodos contraceptivos, o certo é que a programação da TPA (Televisão Pública de Angola) também não ajuda a que este número baixe e por outro lado temos o ego masculino que pode ser rejeitado socialmente senão procriar. Enfim, é tudo a ajudar.
 
Longe estão os tempos em que o ganha-pão era responsabilidade só dos homens. Agora a sobrevivência passa a ser uma questão de igualdade, mas onde a mulher carrega tudo: carrega a criança às costas, muitas vezes carrega uma às costas e outra dentro da barriga, carrega as robustas cargas para a venda do dia, carrega o sol na cabeça quando sai e retorna com ele, carrega a ingratidão do marido com os copos, carrega as lamentações das crianças, carrega, carrega, carrega…
 
Carregado de animação também estava o Miami no Domingo à noite. Em noite de derby Sporting-Benfica, muitas eram as camisolas (mais vermelhas que verdes), que assistiam, com olho no burro olho no cigano, quer ao jogo, quer ao espectáculo que decorre todos os domingos à noite. Nós lá estávamos com a nossa Estrela Blue, a Telma, que no fim-de-semana anterior arrebatou o troféu Canta com Blue nas Escolas. É gratificante ver que podemos ajudar a concretizar sonhos de criança. Estou certo que este dia ficará para sempre na memória da Telma e da sua mãe, afinal de contas foi a primeira vez que ela pisou um palco a sério com honras de casa cheia. Minutos antes da Telma actuar fui ter com ela e disse-lhe:
- Telma, é o teu dia, vais conseguir fazer ainda melhor que na final do Canta Com Blue nas Escolas. A Yola Semedo está aí, mostra-lhe como é. Dedica a tua música a ela e à Blue.
- Já tinha pensado nisso e vou também dedicar esta música a todas as mulheres angolanas, disse ela com algum nervosismo.
 
Deu um gozo enorme ver o que ela conseguiu fazer em palco. A segurança com que encarou este desafio, deixa-nos convictos de que poderemos estar perante uma futura estrela da música angolana e que bom foi sentir aquele abraço dela no final, agradecendo a oportunidade que a Blue lhe deu para concretizar o seu sonho. Força Telma, vais longe!
 
Entretanto, esta semana o meu colega açoriano, o André regressou a Portugal quase dois anos depois de ter abraçado este projecto. Agradeço-lhe, não só pela amizade e pelo companheirismo, mas também por todo o trabalho que fez na área da visibilidade das nossas marcas. Quem visita Luanda é obrigado a reparar nas inúmeras placas da Blue que estão espalhas por toda a cidade. Quando as virem já sabem: é obra do André Lima, um castiço que frequentemente se despedia das pessoas ao telefone com a célebre expressão: Beijo no rabo. Obrigado por tudo amigo, eu tomo conta da tua Kiki!
 
Beijinhos e abraços,
 
Conde de Angola
 
 
P.S. Dentro de alguns dias volto a Portugal onde devo ficar uns 10 dias. Vou aproveitar para matar saudades de tudo. Quero muito ver o meu filhão lindo com os primeiros sintomas de acne juvenil. O tempo voa! Daqui para a frente… é viver um dia de cada vez e aproveitar os pequenos momentos que a vida me possa dar…

publicado por Conde de Angola às 21:46
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