Domingo, 27 de Julho de 2008

Escrevo porque preciso de dizer sem falar

 

Nem sei bem há quanto tempo estou sem escrever aqui, era bastante simples saber, bastava olhar a data do último post e fazer uma simples conta de subtrair. Mas será isso importante? Claro que não! Importante é poder escrever quando quero, o quero, sem que para tal exista um determinado roteiro ou guião que me obrigue a fazê-lo.
 
Escrevo porque preciso de o fazer. Sinto que há tanta coisa para dizer, tanta sensação vivida, tantos pensamentos por partilhar. Escrevo porque preciso de dizer sem falar! Escrevo para estar neste mundo, para me ausentar dele, por amar, por odiar, pela felicidade, pela tristeza, pela companhia, pela solidão, para ocupar tempo, por não ter tempo, só para mim, só para os outros, para desabafar, para me calar, por tudo, por nada, por ser diferente, por ser igual, por ter problemas, por não os ter… é por isto que escrevo e por muito mais que fica comigo.
 
Desde a última vez muitas coisas se passaram…
 
Já conduzo facilmente, confesso que volta e meia ainda me perco nas ruas de Luanda, mas é bem mais simples e prático conduzir por cá: traços contínuos, semáforos, rotundas, cruzamentos, entroncamentos, prioridade à direita, o que é isso? Alguém sabe? Por aqui não! Vêem como é mais simples, tudo vale, só temos mesmo de ter a certeza que os retrovisores funcionam. Por falar nisso, um destes dias de manhã entro no carro, com destino à Rua Rainha Ginga e quando olho pelo retrovisor, não queria acreditar, arrancaram-no, como se não bastasse, olho para o do lado direito e qual quê, também já lá não estava. Angola é Nossa!
 
Estamos a patrocinar a novela Morangos com Açúcar de Angola, no dia em que fui assistir às filmagens que estavam a ser feitas na marginal, fui convidado para fazer de figurante. Pensei várias vezes: ainda bem que não estamos gravar uma cena de simulação de assalto ao banco, caso contrário ainda abrem fogo sobre os actores e os figurantes… Não sei se já vos disse mas recentemente dois jovens actores, confundidos pela polícia como marginais a sério foram abatidos, no bairro do Sambizanga em Luanda, quando empunhavam armas de fogo numa cena ficcionada para um filme sobre delinquência juvenil. Parece que a polícia confundiu a cena de ficção com a realidade.
 
Nos dois dias que estive no Lubango para tratar do evento de inauguração do novo armazém da Refriango naquela cidade, ainda tive tempo para ganhar uns trocos no casino, neste momento o saldo é de 1800 dólares positivos. Qualquer dia proíbem-me de entrar na cidade. Antes de regressar a Luanda ainda passei pela quinta para comprar os famosos morangos para o jantar. Eram sete horas da manhã e lá estavam as senhoras com as caixinhas de plásticos a colhê-los da terra directamente para o Conde…lololol
 
Voltei a jogar futebol… devo ter estado cerca de dois anos sem tocar na xixa. Ainda me lembro das dores horríveis que tive depois da cirurgia a que fui sujeito depois de ter rasgado o tendão de aquiles. Abençoada Dra. Margarida, tratou-me muito bem o pé. Desde então nunca mais tinha jogado, agora voltei a fazê-lo com os colegas da empresa à quarta-feira e nem me lembro que fui operado, mas pelo sim pelo não, tenho o cuidado de fazer um bom aquecimento antes não vá o diabo tecê-las.
 
Fui à Muxima para preparar a peregrinação que decorrerá nos dias 15, 16 e 17 de Agosto. A capela da Nossa Senhora da Muxima é dos lugares de Angola em que fica bem evidenciado o lado espiritual dos africanos. Conta a lenda popular que ela surgiu repentinamente, por obra de um milagre da Santa Maria, que terá tido duas aparições no local na primeira metade do século XVII. Desde então o local tem sido um dos pontos preferenciais de muitos crentes, a maioria dos quais católicos. Muxima (coração em Kimbundu) é uma zona de forte tradição de magia e bruxaria, pelo que o "surgimento milagroso da capela" terá sido uma demonstração de poder de Maria sobre as outras poderosas da área.
 
Há quem diga que a capela e o forte foram edificados pelos holandeses, contudo esta versão é dúbia, pois os holandeses não têm tradição católica. A outra versão diz que foram os portugueses pelo facto da capela apresentar um estilo típico português. É igualmente curioso o facto de se ter resolvido edificar um templo num local de tão difícil acesso, e a vários quilómetros da costa, numa altura em que a ocupação da colónia se restringia à orla marítima. No meio de toda essa miscelânea de lendas, milagres, mistérios e contradições, desde 1645 que Muxima tem chamado a si corações de milhares de pessoas que junto dela falam das suas preocupações, angústias e desejos. Muita gente vai à "Mamã Muxima" na esperança de que esta resolva os seus problemas de saúde que a ciência não tenha conseguido neutralizar, outros vão pedir que ela lhes traga dinheiro e os livre da pobreza em que vivem.
 
O Forte da Muxima e a capela, são hoje considerados Património Mundial da UNESCO, a pedido do Governo Angolano. Excepcionalmente, as comemorações este ano serão antecipadas por motivo das eleições, sendo a data oficial para a comemoração no primeiro fim-de-semana de Setembro.
 
Depois de falarmos com as pessoas responsáveis pelo local e depois de estar tudo acertado relativamente à presença da Blue no evento que junta milhares de peregrinos, levaram-nos para um pequeno armazém onde estava preparado o Mata-bicho (Mata-bicho = Pequeno Almoço) com cacussos fritos. Os cacussos são peixes de água doce que para além de serem um delicioso pitéu, são também uma preciosa ajuda para combater a malária. Nos lagos e rios onde vivem, comem as larvas do mosquito portador da doença. Digo-vos, naquele dia soube a pato… abençoados cacussos serviram de pequeno-almoço e almoço.
 
Finalmente sei quando vou de férias e também quando não vou. A parte do não ir pouco importa, importa mais saber que daqui a quatro semanas vou pegar no meu filho e vou com ele. Onde, ainda não sei… sei sim que vai ser bom voltar a partilhar a minha vida com a coisa que mais amo.
 
Até lá, ainda muita coisa há por fazer, o trabalho é muito, a equipa vai-se revezando entre Luanda e as províncias, uns em Benguela, outros no Huambo, o Miguel a caminho do Lubango, enfim a correria é grande, mas a vontade de fazer é maior. Obrigado Team!
 
 
Beijos e abraços,
 
Conde de Angola

publicado por Conde de Angola às 21:43
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Quarta-feira, 9 de Julho de 2008

Alambamento

Para alguns o Alambamento não é novidade. Aquando da minha primeira vinda a Angola, tive a oportunidade de escrever sobre o tema, não em formato “post de blog” mas em mail enviado aos meus amigos. Já na altura o tema interessou pela sua originalidade, pela tradição e essencialmente pelos rituais que envolve. Nos últimos sete meses tive oportunidade de o aprofundar e chegou agora o momento de o partilhar, não vá algum de vocês querer casar com alguma angolana e convém não fazer má figura perante a família da noiva. Depois digam que o Conde não avisou.
 
Para melhor retratar a cerimónia do Alambamento, contei com a preciosa colaboração do Octávio Paulo José, que me facultou as fotos que ilustram este post, e também com a ajuda do Pedro Mbala, um dos nossos motoristas, que me conseguiu arranjar todos os impressos que envolvem a cerimónia. O Octávio (à esquerda na foto), pertence à Blue Team, é um dos nossos operativos, tem 31 anos, está noivo da Josefa Chaula Saldanha de 25 anos e ambos vivem neste momento o ritual que envolve toda a cerimónia do Alambamento. Bom é melhor começar a explicar o que é isto do Alambamento.
 
A grande maioria das sociedades tradicionais angolanas, tem como figura principal a mulher. É ela que trabalha a terra para sustento da família e gera os filhos que dão continuidade e poder ao clã. Por este motivo a saída da mulher da casa dos pais para a casa do marido, constitui para aqueles a perda de um precioso elemento de trabalho e, como tal eles merecem ser compensados por tal perda.
 
Na altura em que o noivo pretende pedir a mão na noiva em casamento, a família da noiva, geralmente os tios e tias, juntam-se e elaboram a carta do pedido. O que é então a “Carta do Pedido”? Também conhecida por “Relação do Pedido”: trata-se de uma lista elaborada pelos tios, onde consta uma relação de coisas que o noivo tem de “comprar” para oferecer à família da noiva, como indemnização pelos gastos feitos com ela desde o seu nascimento até ao dia do casamento. O dote representa um bem valioso porque quanto maior o pagamento, maior prestigio terá a noiva. Nesta lista constam coisas tão originais como, o fato para o pai da noiva, panos para as tias, cerveja, gasosa e ainda dinheiro que pode variar entre os 300 e os 500 dólares. Entretanto, este valor pode ser superior, caso o noivo tenha saltado a janela (acho esta expressão o máximo) sabe-se lá se o rapaz não partiu os vidros da mesma... Nada disso, saltar a janela significa que a noiva engravidou antes do casamento e é justo que o pedido seja reforçado.
 
Na altura da entrega da carta do pedido, é marcada uma data para que o noivo possa voltar com o pedido feito, ou seja, com tudo o que consta na carta. De realçar que na altura da entrega do pedido, nem a noiva, nem o noivo assistem à entrega do mesmo, deixando esse trabalho para a família (pais e tios dos noivos). Cabe aos tios da noiva, conferir a entrega com o pedido que foi feito. Só depois de verificarem que está tudo em conformidade, é que o noivo é chamado à cerimónia, para que se inicie a marcação da data do casamento. Nesta altura o noivo é trazido às cavalitas por uma das tias da noiva, e à medida que vai passando pelos panos das tias, que estão estendidos no chão tem de ir deixando dinheiro em cada um deles.
 
Agora já só falta a noiva. Onde estará? As tias geralmente dizem que está longe e que precisam de dinheiro para o táxi (candongueiro) para que a possam ir buscar. Tretas. Está mesmo no quarto ao lado. Esta é mais uma artimanha para explorar o coitado do rapaz. Por isso vos digo meus amigos, pensem bem antes de se meterem com uma angolana…
Depois do noivo largar mais umas kuanzas para o táxi, lá chega a noiva à sala, dando-se então lugar à marcação da data do casamento. Escusado será dizer que esta cerimónia acaba com grande festa no quintal, regada com o vinho e as cervejas que o noivo acabou de oferecer.
 
Mas o ritual, não fica por aqui. Já depois do casamento, e em caso de divórcio forçado e com as culpas para a noiva, ela terá de devolver as ofertas constantes na carta, completas ou parciais caso existam filhos. Se as culpas pertencerem integralmente ao rapaz ou à sua família, a exigência da restituição do dote torna-se impossível.
 
Só para perceberem a importância que este ritual tem na sociedade angolana, uma das marcas mais famosas de vinho em Angola está a usar o ritual do Alambamento num filme publicitário. Vai ser um sucesso de vendas, só pode.
 
 
Beijos e abraços,
 
Conde de Angola

 

P.S. Octávio e Josefa, aqui ficam os meus votos de felicidades para vocês.


publicado por Conde de Angola às 00:36
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